Artigo publicado originalmente no Portal das Manas*, em 15.09.20, neste link.

 

Olá! Vamos falar hoje de um assunto que ainda causa muita confusão – pensando bem, quase tudo relacionado à sexualidade humana causa confusão, né? Tudo por conta da dificuldade que as pessoas têm de conversar sobre o tema, e aceitar o que é diferente. Temos muito que aprender, ainda!

Bom, como eu vinha dizendo, nessa minha primeira coluna aqui no Portal das Manas (obrigada pelo convite para participar, gente!) abordarei a questão da assexualidade.

Tem frases que pessoas assexuais estão cansadas de ouvir:
– É uma fase. Daqui a pouco passa.
– Ah, isso deve ser problema hormonal!
– É porque você deve ter tido alguma experiência sexual ruim e ficou com trauma.
– Decepção amorosa. Batata!
– É porque você não encontrou alguém que faça você tremer nas bases.

Com certeza, quem se encaixa no perfil “assexual” tem uma série de outras “pérolas” para completar essa lista. Ou não?

Então, vou explicar tudo, tim-tim por tim-tim.

Afinal de contas, o que é ser assexual?

A assexualidade é definida como a ausência de atração sexual por pessoas de qualquer gênero ou orientação sexual; e pelo pouco ou nenhum interesse pela práticas sexuais. O seu contrário é a alossexualidade, que designa as pessoas que sentem atração sexual.

A assexualidade é um problema?

Não, a assexualidade não é um problema, nem uma doença física ou psicológica, nem uma disfunção sexual. Não é causada por nenhum trauma ou abuso, e não se confunde com a frigidez.

É uma orientação sexual assim como a heterossexualidade, a homossexualidade, a bissexualidade. É uma característica natural da pessoa.

A pessoa assexual é feliz e realizada dentro de sua orientação, assim como os alossexuais. O assexual não é um “frustrado”.

Como distinguir entre assexualidade e falta de desejo sexual?

As palavras-chave aqui são “necessidade” e “sofrimento”. O assexual não sente necessidade de sexo, e está muito bem com isso, obrigado. A pessoa que tem transtorno do desejo sexual hipoativo (falta de desejo sexual) se sente incompleta, angustiada, e não realizada. Na maioria das vezes ela já sentiu desejo e, por razões físicas ou emocionais, deixou de sentir. Então, a necessidade está ali, insatisfeita. E isso gera sofrimento.

E o que é “demissexual”???

Pronto! Um outro nome pra confundir ainda mais a cabeça de todo mundo! Demissexual! E agora???

Calma, gente! É o seguinte: a demissexualidade é uma espécie de “subdivisão” da assexualidade. Estão incluídas aí aquelas pessoas que só sentem atração sexual por alguém quando existe um vínculo emocional profundo. Um compromisso muito forte, mesmo. Elas não conseguem conceber o sexo sem esse laço.

As pessoas assexuais nunca fazem sexo?

As pessoas assexuais podem eventualmente ter relações sexuais, se masturbar, sentir prazer e ter orgasmo. Tudo funciona direitinho. Mas o peso ou importância que elas dão ao sexo é pequena. Isso não quer dizer que seja um relacionamento sem paixão, intimidade, afetividade ou carinho.

Como é o relacionamento assexual?

Como qualquer outro relacionamento – só vai funcionar se houver diálogo entre as partes. E isso vale tanto quando as duas pessoas são assexuais, como quando apenas uma delas é. Pois, sim, é possível haver um relacionamento feliz entre uma pessoa assexual e outra “sexual”. Pessoas assexuais se apaixonam, namoram, casam, brigam, se separam, casam de novo…por que seria diferente?

Há mais homens ou mais mulheres assexuais?

O biólogo Alfred Kinsey, no final da década de 1940, fez uma pesquisa em que avaliou o comportamento sexual das pessoas e concluiu que cerca de 1% da população mundial não tinha interesse sexual. Em 2004, Anthony Bogaert, sexólogo canadense, chegou ao mesmo resultado.

Mais recentemente, porém, dados do Programa de Estudos da Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (ProSex-IPq), indicam que esse percentual deve ser bem maior, e mostraram que aproximadamente de 7,7% das mulheres brasileiras e 2,5% dos homens, entre 18 e 80 anos, são assexuais.

Ah, então há mais mulheres assexuais do que homens! Pode ser, e pode não ser. De um lado, homens têm muito mais dificuldade em assumir que não sentem desejo. O machismo estrutural e o mito da virilidade pesam. Já para as mulheres, acaba sendo um pouco mais fácil – e, e muitos casos, o “não sentir desejo” é até considerado virtude moral, por conta do mesmo machismo…Ou seja, esses fatores podem esconder números bem diferentes do que aponta a pesquisa.

Concluindo…

A ideia de que alguém não sinta desejo sexual pode parecer estranha para a grande maioria das pessoas. Principalmente considerando que as artes visuais, a literatura, a música, o cinema, a propaganda têm na exaltação do desejo sexual sua principal inspiração e argumento, influenciando toda a sociedade. Isso, aliado ao fato da assexualidade não ter muita visibilidade, faz com que muita gente se sinta meio deslocada – e demore a entender que aquilo que sente (ou não sente) é perfeitamente normal.

Nesses casos, meu conselho é: procure uma terapia. Para se entender e encontrar o lugar que, por direito, é seu nesse mundo!

Beijos, da Lelah!

(*) O Portal das Manas é uma iniciativa da jornalista Priscila Gorzoni.

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