Não, não foi numa rua escura, num local isolado. Não, a roupa dela não era curta demais, nem decotada demais. Não, ela não estava “dando mole” pare ele. O deputado Fernando Cury aproximou-se por trás da deputada Isa Penna, abraçou-a e passou a mão no seu seio. Fez isso no auditório bem iluminado da ALESP – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, cheio de parlamentares e seus assessores, na frente do presidente da casa, e com câmaras registrando tudo. O vídeo tomou conta dos portais de notícias e das redes sociais.

O que leva um homem a ter uma atitude dessa, à vista de todos, sem qualquer constrangimento ou receio de reprovação ou punição? Infelizmente, é porque o desrespeito à mulher e ao seu corpo é algo naturalizado em nossa sociedade. São séculos de uma estrutura machista e patriarcal, onde meninos foram levados a acreditar que podiam tudo, que estavam acima da lei, e acima do direito dos corpos. O assédio sexual é uma manifestação de poder, de autoridade, uma forma de subjugar. De lembrar à mulher “qual é o seu lugar”.

Afinal, como uma mulher ousa estar no plenário de uma câmara legislativa, numa sessão em que se está votando o orçamento de um estado inteiro? É preciso cortar-lhe as asas, fazê-la ver que não pertence àquele espaço de homens.

Ah, deu ruim? Ela reclamou? O caso repercutiu na mídia? Simples: é só pedir desculpas, dizendo que a intenção não foi afrontar ninguém. Nunca assumir a responsabilidade pela atitude, mas transferir para a vítima a reação exagerada. Implicitamente, deixar subentendido que ela é meio louca, ou quer se aproveitar da situação – afinal, não aconteceu nada de mais. Foi a fórmula usada pelo deputado Fernando Cury no seu pedido público de desculpas:

“Se a deputada Isa Penna se sentiu ofendida com o abraço que eu lhe dei, eu peço desculpa por isso. Desculpa se eu a constrangi, desculpa se eu tentei abraçar e estar próximo, como faço com diversas colegas aqui na casa, desculpa se ela se sentiu realmente constrangida, como de fato parece que sim.”

Se a deputada se sentiu ofendida? Não, ela não se sentiu ofendida. Ela FOI ofendida.
Se eu a constrangi? Não tem “se”. Você a constrangeu, deputado.

Ainda há um longo caminho a percorrer para que situações como essa não voltem a acontecer. Os primeiros passos incluem a valorização dos programas de educação sexual voltados para as novas gerações, para que elas não venham a repetir esse tipo de comportamento. Além disso muitos cursos, campanhas, palestras de conscientização – em escolas, empresas, igrejas etc. (um trabalho que eu venho desenvolvendo há mais de 20 anos, mas que tem que se tornar política pública).

É preciso enfrentar esse problema com seriedade. O caso da ALESP foi público e gravado. A pergunta que fica é: e o que não é público, nem gravado?

Lelah Monteiro

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