Extra, extra! As mulheres vão embora.

Deparei-me por esses dias com este texto da Martha Medeiros, e imediatamente me lembrei de tantas mulheres que passam pelo meu consultório, ou compartilham comigo suas dúvidas e problemas através do programa Terapia em Família, na Rádio Capital. Essas palavras são pra vocês, minhas queridas!!!

Abs.
Lelah Monteiro
11 99996-3051


As mulheres vão embora

“Toda mulher tem um homem que se foi”. Assim começa um poema que escrevi cerca de 20 anos atrás, reforçando a ideia de que eles saem para comprar cigarro e esquecem de voltar.

A sociedade sempre aceitou como natural a figura do homem que um dia se enrabicha por outra e abandona a família, ou, dizendo de forma menos cafajeste, a do homem que deixa de amar a esposa e reconstrói sua vida.

Pertencia só a eles a liberdade de ir e vir.
Tinham dinheiro no bolso e eram donos de seus narizes: às mulheres restavam as lágrimas e uma pensão para os filhos, tivessem um bom advogado.

Hoje, as mulheres também vão embora.
Não precisam alegar que irão comprar cigarro na esquina, a sinceridade é mais saudável: elas se vão porque a relação se desgastou, se vão para escapar de um parceiro agressivo, se vão porque se apaixonaram por outro, se vão porque evoluíram profissionalmente e novas oportunidades surgiram.

Se vão porque assim decidiram.
Diante da secular hegemonia masculina, nossa independência ainda é uma novidade, nem todos se acostumaram.

Mas homens esclarecidos e sagazes nos respeitam.
Sofrem, como nós sofremos com a partida deles.
Choram. A dor da perda é a mesma.
Vez que outra, os mais inconsoláveis rogam praga: “você vai ficar sozinha para o resto da vida!”.

Cuidado. Em vez de inibi-la, a ameaça poderá entusiasmá-la: o que não falta é mulher sonhando em sair de uma relação para viver só para seus livros, filmes e amigos, livre como o vento soprando nas montanhas.

Pena que não há poesia na ignorância.
Uma mulher que se vai, para muitos, é uma afronta.

Homens mal preparados para a igualdade não sabem lidar com a rejeição.
Em vez de buscarem uma terapia para ajudar, eles buscam a arma que escondem em cima do armário, buscam uma faca na gaveta da cozinha e aumentam os índices de feminicídio. É só ler os jornais, acompanhar as estatísticas. É sempre a mesma razão banal: matou porque ela teve a audácia de largá-lo.

Extra, extra! As mulheres vão embora.
Ganham o próprio salário e vão embora.
Leem, se informam, se unem, se reconhecem em outras mulheres, e se for necessário, vão embora.
São mães e vão embora sem fugir de suas responsabilidades: estão protegendo os filhos de um ambiente hostil.
Amaram seus homens, foram felizes com eles, e quando deixaram de ser, foram embora.

Nada de novo, é o que os homens sempre fizeram.
Novidade seria se eles fossem assassinados por causa disso.

Eduquemos bem nossos meninos de 8, de 10, de 15 anos: mulheres não são propriedade alheia, elas vão embora.

Cientes dessa realidade, quando adultos eles se tornarão os melhores companheiros, os mais inteligentes, os mais amorosos, aqueles que darão a suas parceiras todos os motivos para ficar.

(Martha Medeiros)