OUTUBRO ROSA E SEXUALIDADE

Como vem acontecendo no Brasil desde 2002, quando pela primeira vez o Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo, SP, foi tingido por luzes cor-de-rosa, neste mês celebramos o Outubro Rosa. Governos, entidades e sociedade civil se unem pela conscientização sobre a prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama e, mais recentemente, também do câncer de colo do útero.

Campanhas publicitárias; matérias em todas as mídias; distribuição de cartilhas educativas; eventos técnicos, debates e apresentações; mutirões de exames – todas essas ações se sucedem, mas raramente o tema “sexualidade” faz parte de tudo isso. É como se a simples menção da palavra “câncer” automaticamente apagasse de qualquer contexto esse aspecto tão importante da vida de qualquer ser humano.

É justamente nesse “vácuo” que eu, como sexóloga, psicanalista e fisioterapeuta pélvica quero dar minha contribuição. Atuo há mais de 25 anos com educação e terapia ligadas ao tema, e sei da importância de estar bem com o próprio corpo e a própria sexualidade tanto na prevenção quanto no enfrentamento do câncer.

Muito se fala sobre o autoexame para reconhecer sinais de possíveis mudanças que denunciariam um câncer de mama, por exemplo. Isso implica em conhecer-se, tocar-se. E muitas mulheres, por desconhecimento, vergonha, tabus, sequer isso fazem. Ir a um ginecologista, fazer uma mamografia, então, fica ainda mais longe de sua realidade e as torna ainda mais vulneráveis.

A pesquisa “Expectativa da Mulher Brasileira Sobre Sua Vida Sexual e Reprodutiva: As Relações dos Ginecologistas e Obstetras Com Suas Pacientes”*, divulgada em fevereiro de 2019 apontou que 12% das entrevistadas nunca foi ou não costuma ir ao ginecologista; ou tinha ido ao especialista há mais de um ano (20%). Numa projeção, a soma desses números chega a 26,7 milhões de mulheres! As principais razões alegadas para esse comportamento são: achar que está saudável e não precisa (31%); não considerar importante (22%), ter vergonha (11%); não gostar (4%); ter medo de detectar algo (7%). Em todas elas percebe-se, em última instância, uma dificuldade de conhecer o próprio corpo e lidar com ele, enxergar-se. Por isso a educação para a sexualidade é uma importante ferramenta de empoderamento da mulher frente à própria saúde.

Outro ponto que merece a atenção é como fica a vida sexual da mulher durante ou após um tratamento de câncer: acho que sou a única profissional da área de saúde que insiste na importância do gel vaginal. Fáceis de usar, disponíveis nos postos de saúde, trazem um conforto imenso, pois toda a mulher em tratamento de câncer acaba tendo secura vaginal e até dificuldade com a saída do xixi. A única recomendação dada é: beba mais água. Como se só isso importasse.

E em casos em que a cirurgia de mastectomia se torna necessária, trabalhar a questão da sexualidade também é o melhor caminho para reapropriar-se do corpo e encontrar novas formas de lidar com ele e com os outros, principalmente com o parceiro. Acima de tudo, é um caminho para recuperar a autoestima.

Então, neste Outubro Rosa, vamos falar também de sexualidade, OK?

Um abraço, Lelah Monteiro

(*)  realizada em dezembro/18 por Febrasgo – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – e Instituto Datafolha.